Algumas mensagens chegam de maneiras inesperadas
Eu estava pensando em um presente para uma pessoa querida quando me deparei com aquele bordado.
Era uma imagem simples, feita de linhas. Nada grandioso, nada que parecesse carregar uma grande revelação à primeira vista. Mas alguma coisa naquela imagem me chamou atenção de uma maneira diferente.
E então veio uma frase.
“As raízes são feitas no silêncio.”
Foi uma daquelas mensagens que chegam sem que a gente esteja necessariamente procurando por elas.
Junto dela veio também uma sensação muito particular: a de que minha avó havia me mostrado aquilo de uma maneira rica, porém simples.
Não como quem entrega uma grande lição pronta, mas como quem ensina alguma coisa através da própria maneira de viver.
Fiquei pensando nisso.
O que será que significa criar raízes no silêncio?
Talvez algumas experiências pequenas tenham esse poder. Elas acontecem em poucos segundos, mas encontram dentro da gente alguma coisa que já estava sendo construída há muito tempo.
Talvez a frase não tenha chegado para me ensinar algo completamente novo.
Talvez ela apenas tenha colocado em palavras algo que eu ainda não sabia explicar.
O que significa criar raízes no silêncio?
Quando pensamos em uma árvore, costumamos imaginar aquilo que conseguimos enxergar.
O tronco.
Os galhos.
As folhas.
As flores.
Os frutos.
Mas existe uma parte inteira daquela árvore acontecendo longe dos nossos olhos.
Debaixo da terra, as raízes crescem.
Elas não recebem aplausos.
Não precisam ser vistas.
Não aparecem nas fotografias.
Não anunciam que estão crescendo.
Elas simplesmente continuam.
Aprofundam-se, encontram espaço, procuram aquilo de que precisam e, pouco a pouco, constroem a sustentação que permitirá que tudo aquilo que está acima da terra exista.
Talvez algumas partes da nossa própria vida sejam assim.
Existem mudanças que acontecem tão silenciosamente que, durante algum tempo, acreditamos que nada está acontecendo.
Aprendemos alguma coisa, mas ainda não sabemos como aquilo vai transformar nossa vida.
Mudamos por dentro, mas ninguém ao nosso redor percebe.
Começamos a fazer escolhas diferentes, ainda sem saber onde elas vão nos levar.
Cuidamos de alguma coisa todos os dias, mesmo sem enxergar resultado imediato.
E então pensamos que estamos paradas.
Mas talvez não estejamos paradas.
Talvez estejamos criando raízes.
Nem tudo que é importante pode ser visto
Existe uma ansiedade muito grande em torno daquilo que conseguimos medir.
Queremos saber se estamos avançando.
Queremos resultados.
Queremos perceber a mudança.
Queremos olhar para trás e conseguir apontar exatamente aquilo que conquistamos.
Mas nem tudo que é importante funciona dessa maneira.
Alguns aprendizados precisam de anos para fazer sentido.
Algumas mudanças internas acontecem tão devagar que só percebemos quando, um dia, reagimos de uma maneira diferente daquela que teríamos reagido antes.
Algumas escolhas parecem pequenas quando são feitas, mas acabam mudando o caminho inteiro.
Uma conversa.
Uma decisão.
Um hábito.
Uma lembrança.
Uma maneira diferente de cuidar de alguém.
Uma coisa que alguém nos ensinou e que, durante muito tempo, parecia apenas parte da vida.
Nem sempre conseguimos enxergar o que essas pequenas coisas estão construindo enquanto elas acontecem.
Nem tudo que está crescendo está visível.
Talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de aceitar quando estamos acostumadas a procurar resultados.
Às vezes, aquilo que estamos construindo ainda não tem forma.
Ainda não floresceu.
Ainda não pode ser mostrado.
Mas isso não significa que não exista.
O cuidado também acontece em silêncio
Talvez o próprio cuidado seja uma dessas coisas que mais crescem longe dos olhos.
Nem todo cuidado é uma grande demonstração de amor.
Às vezes ele está em preparar alguma coisa para alguém.
Guardar uma lembrança.
Fazer uma comida.
Bordar.
Regar uma planta.
Ensinar uma criança.
Manter uma tradição.
Fazer uma oração.
Ouvir alguém.
Permanecer.
São gestos pequenos, muitas vezes tão incorporados à rotina que deixamos de perceber a quantidade de amor que existe neles.
E talvez muito do amor que recebemos durante a vida tenha chegado exatamente assim.
Sem discursos.
Sem grandes declarações.
Apenas através de gestos repetidos ao longo do tempo.
Talvez seja por isso que algumas lembranças permanecem tão fortes.
Não necessariamente porque alguém disse alguma coisa extraordinária, mas porque aquela pessoa estava ali.
Cuidando.
Fazendo.
Ensinando.
Repetindo pequenos gestos até que eles se tornassem parte da nossa memória.
O cuidado também cria raízes.
E, muitas vezes, só percebemos a profundidade dessas raízes quando somos nós que começamos a repetir determinados gestos.
O que recebemos dos nossos ancestrais sem perceber
Quando penso em ancestralidade, não penso apenas em nomes, datas ou histórias distantes.
Penso também naquilo que chegou até mim através das pessoas que vieram antes.
Uma receita que atravessou gerações.
Uma maneira de cuidar da casa.
Uma palavra que alguém costumava dizer.
Uma crença.
Uma oração.
Um costume.
Um objeto guardado.
Uma história contada tantas vezes que parece fazer parte da família inteira.
Uma maneira de acolher alguém.
Uma forma de enfrentar os momentos difíceis.
Algumas dessas coisas sabemos exatamente de onde vieram.
Outras parecem simplesmente nossas.
Até que, um dia, nos percebemos fazendo alguma coisa e pensamos:
“Minha avó também fazia isso.”
E existe algo muito bonito nessa descoberta.
Porque percebemos que não somos feitas apenas daquilo que escolhemos conscientemente ser.
Também carregamos pequenas marcas das pessoas que vieram antes de nós.
Recebemos maneiras de olhar para o mundo.
Formas de demonstrar amor.
Conhecimentos que talvez nunca tenham sido ensinados formalmente, mas que foram aprendidos pela convivência.
E talvez a ancestralidade também esteja nisso: naquilo que continua vivendo em nós mesmo depois que o tempo passou.
Minha avó me mostrou isso de uma maneira rica, porém simples
Talvez minha avó nem soubesse que estava me ensinando algumas das coisas que hoje consigo enxergar.
Talvez ela não estivesse tentando deixar uma grande lição.
Talvez estivesse apenas vivendo.
E talvez seja justamente aí que exista uma das formas mais bonitas de ensinar.
Nem todo ensinamento precisa ser anunciado.
Alguns são transmitidos pela repetição.
Pelo exemplo.
Pela presença.
Pelo modo como alguém cuida de uma casa, prepara alguma coisa, recebe uma visita, olha para uma planta, guarda um objeto ou permanece ao lado de outra pessoa.
Na época, talvez eu não entendesse o significado de certas coisas.
Hoje, olhando para trás, consigo perceber que havia muito conhecimento escondido na simplicidade.
E talvez isso seja também uma espécie de raiz.
Uma coisa que alguém plantou em nós sem saber exatamente quando iria florescer.
Às vezes, precisamos de muitos anos para compreender algo que nos foi mostrado quando ainda não tínhamos maturidade para entender.
E então uma imagem, uma frase ou um gesto qualquer encontra aquela lembrança e, de repente, alguma coisa se encaixa.
Talvez seja isso que aconteceu comigo diante daquele bordado.
O tempo tem uma maneira própria de ensinar
Vivemos cercados pela pressa.
Queremos respostas rápidas, resultados rápidos, mudanças rápidas.
Queremos aprender logo.
Construir logo.
Chegar logo.
Até mesmo quando estamos cuidando de alguma coisa, podemos sentir ansiedade para ver o resultado.
Mas existem coisas que simplesmente não podem ser apressadas.
Uma raiz não cresce mais depressa porque estamos olhando para ela.
E talvez algumas fases da nossa vida também precisem desse tempo invisível.
A gravidez tem me feito pensar muito nisso.
Existe uma vida crescendo dentro de mim, e eu não consigo acompanhar cada transformação.
Não vejo cada pequena mudança acontecendo.
Não sei exatamente o que está acontecendo a cada instante.
Eu simplesmente sigo cuidando, acompanhando, esperando e confiando que existe um processo acontecendo mesmo quando não consigo enxergá-lo.
E talvez essa seja uma das grandes lições dessa fase:
algumas das coisas mais importantes da nossa vida acontecem enquanto ainda estamos esperando para vê-las.
Existe uma parte do processo que só pode ser vivida.
Não podemos apressá-la para chegar logo à próxima etapa.
Precisamos atravessá-la.
Talvez algumas fases da vida sejam feitas para criar raízes
Talvez nem toda fase da vida seja feita para florescer.
Existem momentos de criar raízes.
Momentos de crescer.
Momentos de florescer.
Momentos de deixar ir.
E momentos de começar novamente.
Talvez a vida tenha seus próprios ciclos e nós soframos um pouco quando tentamos permanecer em apenas um deles.
Queremos flores o tempo inteiro.
Queremos sentir que estamos avançando, produzindo, conquistando, aparecendo.
Mas talvez existam períodos em que a vida esteja pedindo outra coisa.
Silêncio.
Profundidade.
Preparação.
Cuidado.
Paciência.
Talvez eu esteja me cobrando flores quando a vida está me ensinando a criar raízes.
E talvez criar raízes não seja uma fase menor.
É aquilo que permite que, quando chegar o momento de florescer, exista sustentação para aquilo que vai aparecer.
Nem todo período silencioso é um período vazio.
Às vezes, ele é um período de construção.
O silêncio não significa ausência
Talvez essa seja também uma maneira diferente de olhar para o silêncio.
Porque podemos confundir silêncio com ausência.
Quando não recebemos respostas, pensamos que estamos sem direção.
Quando nada parece mudar, pensamos que estamos paradas.
Quando não conseguimos enxergar o resultado, pensamos que talvez não esteja acontecendo nada.
Mas o silêncio não necessariamente significa ausência.
Às vezes, ele é apenas o espaço onde alguma coisa está acontecendo sem fazer barulho.
Existe uma diferença entre estar sozinha e estar abandonada.
Existe uma diferença entre não enxergar e não existir.
Talvez alguns dos momentos mais importantes de conexão aconteçam justamente quando diminuímos o barulho o suficiente para perceber o que já estava ali.
Uma oração.
Um momento diante da natureza.
Alguns minutos sozinha.
Uma lembrança.
Uma sensação difícil de explicar.
A própria intuição.
Não como uma fórmula que precisamos seguir, mas como uma maneira de abrir espaço para ouvir.
Talvez o silêncio não esteja tentando nos dar respostas.
Talvez ele apenas permita que finalmente escutemos as perguntas que estavam sendo abafadas.
O que estou aprendendo sobre cuidar das minhas próprias raízes
Depois daquele encontro com o bordado, comecei a pensar também nas raízes que estou construindo agora.
O que estou fazendo hoje que talvez só faça sentido daqui a alguns anos?
Talvez cuidar da minha saúde.
Cuidar da minha mente.
Construir minha casa aos poucos.
Cultivar minha espiritualidade.
Criar meus projetos.
Aprender coisas novas.
Fortalecer minhas relações.
Construir uma família.
Aprender a respeitar meu próprio tempo.
Talvez algumas dessas coisas ainda não tenham frutos para mostrar.
Mas isso não significa que não estejam acontecendo.
Existe uma beleza diferente em cuidar de algo sem saber exatamente quando veremos o resultado.
Fazer porque acreditamos.
Continuar porque sentimos que vale a pena.
Regar mesmo quando ainda não há flores.
E talvez seja isso que nossas próprias raízes precisam: não de pressa, mas de presença.
De cuidado suficiente para continuar crescendo.
Algumas raízes precisam permanecer escondidas
No fim, aquele bordado era apenas um bordado.
Eu estava pensando em um presente para uma pessoa querida, e uma imagem simples acabou me levando para muito mais longe do que eu imaginava.
Pensei no tempo.
No cuidado.
Na minha avó.
Nas coisas que recebi sem perceber.
Nas coisas que talvez eu esteja construindo agora sem saber exatamente o que elas vão se tornar.
E pensei em como passamos tanto tempo querendo mostrar aquilo que está florescendo.
Queremos mostrar os frutos.
As conquistas.
As mudanças.
Aquilo que finalmente deu certo.
Mas existe uma beleza enorme naquilo que ainda está sendo construído silenciosamente.
Talvez seja isso que significa criar raízes: continuar cuidando, mesmo quando ainda não conseguimos enxergar o que está crescendo.
Algumas coisas precisam de tempo.
Algumas precisam de silêncio.
E algumas das partes mais importantes da nossa história talvez estejam sendo construídas justamente agora, longe dos olhos de todo mundo.
Talvez não seja necessário saber exatamente quando vamos florescer.
Talvez, por enquanto, seja suficiente continuar cuidando daquilo que nos sustenta.
Porque nem toda raiz precisa ser vista para estar cumprindo seu propósito.
