Eu parei de ler
Por muito tempo, os livros fizeram parte da minha vida de uma maneira tão natural que eu nunca precisei pensar muito sobre isso.
Eu lia porque queria ler.
Havia sempre algum livro por perto, alguma história esperando para ser descoberta, alguma vontade de saber o que aconteceria no capítulo seguinte. A leitura fazia parte dos meus momentos de descanso e também daqueles momentos em que eu simplesmente queria ficar um pouco dentro de outro mundo.
Então minha vida mudou.
Depois que engravidei, comecei a perceber que estava lendo cada vez menos. O cansaço aparecia com mais frequência, minha disposição oscilava e, quando finalmente tinha algum tempo livre, muitas vezes eu preferia uma atividade que exigisse menos concentração.
- Um episódio de uma série.
- Um vídeo.
- Alguns minutos no celular.
Qualquer coisa que não exigisse que eu acompanhasse personagens, guardasse informações ou me concentrasse por muito tempo.
E os livros foram ficando para depois.
Até que percebi que já fazia um bom tempo desde a última vez em que tinha lido de verdade.
Foi estranho perceber isso porque eu ainda gostava de ler.
Eu não tinha decidido abandonar os livros.
Não tinha deixado de gostar de histórias.
Eu simplesmente tinha parado.
E então surgiu a vontade de voltar.
Só que existe uma coisa curiosa sobre ficar muito tempo sem ler: voltar pode ser mais difícil do que imaginamos.
Você pega um livro esperando sentir imediatamente aquela mesma conexão de antes e, às vezes, não consegue passar das primeiras páginas.
A concentração não vem.
Você lê um parágrafo e percebe que estava pensando em outra coisa.
Lê novamente.
Avança algumas páginas.
Pega o celular.
E começa a pensar que talvez tenha perdido o hábito de ler.
Mas talvez não seja isso.
Talvez voltar a ler não seja simplesmente abrir um livro novamente.
Talvez seja preciso reaprender a criar espaço para a leitura dentro da vida que temos hoje.
Primeiro: entenda por que você parou de ler
Antes de escolher um livro e estabelecer uma meta, talvez seja interessante perguntar por que você parou.
Porque “não estou lendo” pode significar muitas coisas diferentes.
Talvez você esteja cansada.
Talvez não tenha tempo.
Talvez esteja com a cabeça cheia demais para conseguir se concentrar em uma história.
Talvez esteja passando horas no celular e tenha se acostumado com estímulos muito rápidos.
Talvez tenha perdido o interesse pelos livros que costumava escolher.
Talvez esteja tentando ler coisas que são difíceis demais para o momento que está vivendo.
Ou talvez a leitura tenha deixado de ser prazerosa porque você começou a associá-la a uma obrigação.
Essas situações pedem soluções diferentes.
Se o problema é falta de energia, uma meta de cinquenta páginas por dia provavelmente não vai ajudar.
Se o problema é concentração, talvez seja melhor começar com sessões curtas.
Se você não está gostando dos livros que escolheu, talvez o problema não seja a leitura.
Talvez seja simplesmente aquele livro.
E existe algo importante nisso: antes de tentar consertar o hábito, precisamos entender o que aconteceu com ele.
Aceite que talvez você não leia como antes
Talvez você tenha sido uma pessoa que lia um livro por semana.
Talvez tenha passado por uma fase em que carregava um livro para todos os lugares.
Talvez já tenha lido dezenas de livros em um único ano.
E agora consegue ler cinco páginas antes de dormir.
É tentador olhar para a versão anterior de nós mesmas e pensar que precisamos voltar a ser aquela pessoa.
Mas talvez essa não seja a melhor maneira de começar.
Sua vida mudou.
Sua rotina mudou.
Suas responsabilidades mudaram.
Seu corpo pode estar passando por mudanças.
Seu tempo disponível pode ser diferente.
Então talvez a pergunta não precise ser:
“Como faço para voltar a ler como antes?”
Talvez seja:
“Como a leitura pode caber na minha vida agora?”
Você não precisa voltar a ser a leitora que era.
Pode descobrir a leitora que é agora.
Talvez ela leia menos.
Talvez leia em horários diferentes.
Talvez demore mais para terminar um livro.
Isso não diminui a relação que você tem com a leitura.
A quantidade de livros lidos não é o que determina se você é ou não uma leitora.
Não tente recuperar o tempo perdido
Existe uma armadilha bastante fácil de cair quando decidimos voltar a ler.
Pensamos:
“Agora preciso compensar todo esse tempo em que não li.”
E então criamos uma lista enorme.
Uma meta de livros para o ano.
Uma meta diária de páginas.
Uma TBR gigantesca.
Um desafio.
Uma planilha.
Um calendário.
E, de repente, a leitura que estávamos tentando recuperar como fonte de prazer se transforma em mais uma tarefa para cumprir.
Não precisa ser assim.
Se você ficou meses sem ler, não precisa começar lendo cinquenta páginas por dia.
Pode começar com cinco.
Ou dez minutos.
Ou um capítulo.
O objetivo inicial não precisa ser terminar um livro.
Pode ser simplesmente voltar a sentar com um livro.
Reconstruir a familiaridade.
Lembrar como é ficar alguns minutos em uma história sem precisar chegar a lugar nenhum.
Aumentar o ritmo pode acontecer depois, se fizer sentido.
Por enquanto, talvez cinco páginas sejam suficientes.
Escolha o livro certo para voltar
Se você está tentando recuperar o hábito da leitura, talvez este não seja o momento de escolher o livro que você acha que deveria ler.
Escolha o que você quer ler.
- Pode ser um gênero que você ama.
- Um livro curto.
- Uma história fácil de acompanhar.
- Uma releitura de alguma coisa que você já sabe que gosta.
- Um livro que está na sua estante há meses despertando curiosidade.
Ou simplesmente alguma história que você viu e pensou:
“Isso parece interessante.”
Algumas coisas que podem facilitar sua volta à leitura
Se você está retomando o hábito, pequenos confortos podem fazer diferença: uma luminária de leitura, um marcador bonito, um suporte para livros ou até um novo livro escolhido especialmente para esse momento.
Não precisa ser um clássico.
Não precisa ser um livro considerado importante.
Não precisa ser o livro mais inteligente da sua estante.
Precisa despertar alguma vontade de virar a próxima página.
E existe outra permissão que pode ser especialmente importante quando estamos tentando voltar:
você pode abandonar um livro.
Se começou e não gostou, não precisa transformar aquilo em uma prova de resistência.
Você não precisa terminar um livro apenas porque começou.
Talvez ele seja ótimo, mas não seja o livro certo para você neste momento.
E tudo bem.
Existem muitos outros esperando.
Diminua a barreira para começar
Quando queremos criar espaço para alguma coisa na rotina, podemos pensar que precisamos criar um grande ritual.
- Um cantinho perfeito.
- Uma bebida especial.
- Uma playlist.
- Uma iluminação bonita.
- Uma hora específica do dia.
- Tudo isso pode ser gostoso, mas não precisa ser necessário.
- Às vezes, o que ajuda mais é simplesmente deixar o livro fácil de alcançar.
- Coloque-o na mesa de cabeceira.
- Deixe-o em um lugar onde você costuma descansar.
- Leve-o na bolsa.
Torne a leitura fácil de começar
Um livro à mão, uma iluminação confortável e um cantinho agradável podem ajudar a transformar alguns minutos livres em um momento de leitura.
Deixe o Kindle ou o aplicativo de leitura pronto, se preferir ler digitalmente.
Escolha um horário em que você realmente costuma ter alguns minutos disponíveis.
E, se possível, deixe o celular um pouco mais longe durante esses minutos.
A ideia não é criar um ritual elaborado.
É diminuir a quantidade de esforço necessária para começar.
Se o livro está na sua frente e o celular está em outro cômodo, talvez a escolha fique um pouco mais fácil.
Leia nos momentos em que você realmente tem energia
Talvez você tenha aprendido que o momento “certo” para ler é antes de dormir.
Mas e se você chegar à noite completamente exausta?
Talvez não seja o melhor horário.
A leitura não precisa obedecer a uma regra universal.
Pode acontecer depois do café da manhã.
Durante uma pausa à tarde.
Enquanto você espera alguma coisa.
Em alguns minutos tranquilos depois do almoço.
Antes de dormir, se ainda houver energia.
Ou em pequenos intervalos espalhados pelo dia.
Isso se torna ainda mais importante quando estamos passando por uma fase em que a energia muda bastante.
Em vez de tentar encaixar a leitura à força na rotina, experimente fazer o contrário:
encaixe a leitura nos espaços que a sua rotina realmente oferece.
Talvez hoje você tenha vinte minutos.
Aproveite vinte.
Amanhã talvez tenha cinco.
Leia cinco.
Outro dia talvez não tenha nenhum.
E tudo bem.
Um hábito não precisa acontecer de maneira perfeita para continuar fazendo parte da sua vida.
Se sua concentração está ruim, comece devagar
Uma das coisas mais frustrantes depois de ficar muito tempo sem ler é perceber que os olhos estão passando pelas palavras, mas a cabeça está em outro lugar.
Você termina uma página e pensa:
“Eu não absorvi nada.”
Então volta.
Lê novamente.
E isso pode dar a impressão de que a sua concentração desapareceu.
Talvez ela só precise de tempo para ser reconstruída.
Se você está acostumada a alternar rapidamente entre vídeos, mensagens, notificações e outras informações, permanecer alguns minutos em uma única atividade pode parecer estranho no começo.
Por isso, não precisa começar com sessões longas.
Leia por alguns minutos.
Deixe o celular longe.
Escolha uma história envolvente.
Se precisar reler uma passagem, releia.
Se perceber que está cansada demais para continuar, pare.
Não transforme a dificuldade de concentração em mais uma razão para se culpar.
Aos poucos, permanecer em uma história pode voltar a ficar natural.
Experimente tirar a obrigação de terminar
Talvez uma das coisas mais libertadoras que você possa fazer ao voltar a ler seja abandonar algumas regras.
Você não precisa terminar todos os livros.
Não precisa ler os livros mais famosos.
Não precisa seguir uma lista.
Não precisa ler determinada quantidade por ano.
Não precisa gostar de tudo que começa.
Pode abandonar.
Pode pausar.
Pode voltar meses depois.
Pode ler dois livros ao mesmo tempo.
Pode passar semanas lendo um único livro.
Pode passar um período sem ler e depois voltar.
A leitura é sua.
Ela não precisa se transformar em uma competição contra o número de livros que outras pessoas conseguem ler.
Se o objetivo é recuperar o prazer de ler, talvez a melhor coisa que você possa fazer seja devolver um pouco de liberdade à leitura.
O desafio das 10 páginas
Se você quiser uma maneira simples de começar, experimente algo muito pequeno.
Durante uma semana, leia dez páginas por dia.
Só isso.
Não existe obrigação de continuar depois das dez.
Se estiver gostando, continue.
Se estiver cansada, pare.
Se naquele dia conseguir apenas cinco, tudo bem.
O objetivo não é terminar um livro.
É reconstruir o gesto de pegar um livro e dedicar alguns minutos a ele.
Depois de uma semana, você pode continuar com dez páginas, passar para quinze, ler por vinte minutos ou simplesmente manter o mesmo ritmo.
Não existe necessidade de aumentar.
A meta deve crescer apenas quando o hábito começar a parecer natural.
Porque o que estamos tentando construir aqui não é uma sequência perfeita.
É uma relação novamente familiar com a leitura.
Um plano de retorno à leitura em 14 dias
Se você prefere ter um caminho um pouco mais definido, pode experimentar este plano.
A proposta não é terminar um livro em duas semanas. É reacostumar a sua rotina à presença da leitura.
Dias 1 a 3 — Apenas apareça
Escolha um livro que realmente desperte sua curiosidade e leia por 5 a 10 minutos.
Não pense em quantas páginas deveria terminar.
Sente-se, leia um pouco e pare enquanto ainda estiver tudo bem.
O objetivo desses primeiros dias é apenas reconstruir o gesto de começar.
Dias 4 a 7 — Encontre seu horário
Continue lendo por 10 minutos.
Agora observe quando a leitura parece mais fácil.
Você se concentra melhor pela manhã?
Depois do almoço?
À tarde?
Antes de dormir?
Não escolha o horário porque ele parece bonito ou porque funciona para outra pessoa.
Escolha aquele em que você realmente consegue estar presente.
Ao terminar a primeira semana, faça uma pequena pergunta:
“Em que momento eu tive mais vontade de continuar lendo?”
Essa resposta pode ensinar mais sobre o seu hábito do que qualquer rotina pronta.
Dias 8 a 10 — Aumente apenas se estiver natural
Se os primeiros dias estiverem funcionando, experimente chegar a 15 minutos ou 10 páginas.
Mas não aumente só porque chegou ao oitavo dia.
Aumente se fizer sentido.
Se dez minutos continuam sendo suficientes, continue com dez.
O objetivo não é aumentar a dificuldade.
É aumentar a familiaridade.
Dias 11 a 14 — Deixe a leitura encontrar seu ritmo
Agora, tente simplesmente continuar.
Talvez você queira ler um capítulo.
Talvez vinte páginas.
Talvez apenas quinze minutos.
Observe como está se sentindo e deixe que o ritmo apareça naturalmente.
Ao final dos 14 dias, não pergunte:
“Quantas páginas eu consegui ler?”
Pergunte:
“Eu consegui criar novamente um espaço para a leitura na minha vida?”
Essa é a parte que realmente importa.
Se a resposta for sim, alguma coisa já mudou.
E, a partir daí, você pode decidir se quer manter esse ritmo, aumentar um pouco ou simplesmente continuar experimentando.
Não existe uma linha de chegada.
E se você parar novamente?
Provavelmente vai acontecer.
Em algum momento, a vida vai ficar mais corrida.
Você pode passar alguns dias ou algumas semanas sem abrir um livro.
E talvez a primeira coisa que venha à cabeça seja:
“Perdi o hábito de novo.”
Mas talvez não seja necessário pensar dessa maneira.
Você pode simplesmente:
parar → viver sua vida → voltar.
Um hábito não deixa de ser seu só porque você passou um tempo sem praticá-lo.
Você não precisa começar novamente do zero toda vez.
Talvez bastem algumas páginas para reencontrar o caminho.
Isso vale para a leitura e para tantas outras coisas que gostamos de fazer.
A vida acontece.
Existem fases em que algumas atividades ocupam mais espaço e outras ficam um pouco esquecidas.
Não precisamos transformar cada pausa em fracasso.
Minha tentativa de voltar a ler
Eu também estou tentando voltar.
Depois que engravidei, percebi que a leitura, que antes fazia parte da minha rotina, praticamente desapareceu dela.
E talvez o mais curioso seja que eu continuo gostando de livros.
Não foi uma decisão consciente de parar.
Foi acontecendo aos poucos.
Um dia eu estava cansada demais.
No outro, preferi assistir alguma coisa.
Depois deixei um livro para amanhã.
E, quando percebi, já fazia bastante tempo.
Agora estou tentando encontrar novamente um espaço para a leitura dentro da vida que tenho hoje.
Não quero estabelecer uma meta enorme para recuperar todos os livros que não li.
Quero simplesmente voltar a ler.
Talvez sejam algumas páginas em um dia.
Talvez um capítulo em outro.
Talvez eu consiga ler bastante em uma tarde em que estiver mais disposta.
E talvez também existam dias em que não vou conseguir ler nada.
Estou tentando aceitar isso.
Porque talvez voltar a ler não precise ser mais uma coisa que preciso fazer perfeitamente.
Quero descobrir qual é a minha maneira de ler agora.
E talvez, daqui a alguns meses, eu volte a este artigo e escreva uma pequena atualização sobre como foi esse processo.
Porque acho interessante pensar na leitura não apenas como um hábito que precisamos recuperar, mas como uma parte da vida que pode mudar junto conosco.
Talvez voltar a ler seja simplesmente voltar para si
Talvez eu não volte a ler da mesma maneira que lia antes.
Talvez eu leia menos páginas, em horários diferentes, entre uma coisa e outra.
Talvez alguns livros sejam abandonados pelo caminho.
E tudo bem.
Neste momento, voltar a ler não é sobre quantidade.
Não é sobre terminar determinada quantidade de livros.
Não é sobre provar que ainda consigo me concentrar.
É sobre abrir novamente um espaço para algo que eu gosto dentro da vida que tenho hoje.
Porque a vida muda e, às vezes, algumas partes de nós acabam ficando em silêncio por um tempo.
Isso não significa que desapareceram.
Talvez estejam apenas esperando um pouco de espaço para voltar.
Talvez eu não esteja apenas tentando voltar aos livros.
Talvez esteja tentando reencontrar uma pequena parte de mim que ficou em silêncio por algum tempo.
