“Mas isso é produtivo?”
Talvez você conheça essa voz.
Você está pintando e pensa:
Eu poderia estar fazendo alguma coisa mais útil.
Está lendo e lembra de uma tarefa que ainda precisa terminar.
Está bordando e pensa que deveria estar trabalhando.
Começa uma série e sente que talvez estivesse desperdiçando tempo.
É curioso como até os momentos de lazer podem vir acompanhados de culpa.
“Mas isso serve para quê?”
Quando estamos trabalhando, raramente sentimos necessidade de justificar o tempo. Mas, quando fazemos algo apenas porque gostamos, parece que precisamos encontrar uma razão aceitável.
Talvez desenvolva uma habilidade.
Talvez possa virar renda.
Talvez renda conteúdo.
Talvez contribua para algum objetivo.
E assim, pouco a pouco, até o nosso tempo livre começa a precisar produzir alguma coisa.
Mas será que precisa?
Talvez algumas coisas possam simplesmente nos fazer bem enquanto acontecem.
Quando tudo precisa virar produtividade
Vivemos em uma época em que quase qualquer interesse pode ser transformado em projeto.
Você gosta de cozinhar? Pode criar conteúdo.
Gosta de fotografar? Pode trabalhar com fotografia.
Gosta de escrever? Pode criar um blog.
Gosta de pintar? Pode vender suas pinturas.
Gosta de bordar? Pode abrir uma loja.
Gosta de ler? Pode fazer resenhas, vídeos e desafios.
E isso pode ser maravilhoso quando é uma escolha.
O problema começa quando a possibilidade vira obrigação.
Você pega um bordado e já pensa que poderia vendê-lo.
Pega um pincel e pensa no conteúdo que poderia produzir.
Abre um livro e lembra da meta de leitura.
Começa um projeto criativo e imediatamente pensa em como transformá-lo em produto.
A atividade continua sendo a mesma.
Mas a sensação muda.
Agora existe resultado.
Existe desempenho.
Existe uma expectativa.
E aquilo que deveria ser um lugar de prazer começa a parecer mais uma tarefa.
Afinal, o que é um hobby?
Talvez um hobby seja justamente uma das poucas coisas da vida que não precisam de uma justificativa maior.
Você faz porque gosta.
E isso basta.
Um hobby não precisa ser lucrativo, impressionante ou útil. Não precisa melhorar seu currículo, gerar conteúdo ou ser compartilhado com ninguém.
Você pode pintar sem querer ser artista.
Ler sem querer bater uma meta.
Cuidar de plantas sem transformar a casa em um jardim perfeito.
Fazer cerâmica, crochê, fotografia, culinária ou qualquer outra coisa sem descobrir imediatamente “onde isso vai dar”.
“Eu gosto” já é uma razão.
O valor de fazer alguma coisa sem um objetivo
Existe algo especial em fazer uma atividade sem precisar chegar a algum lugar.
Quando você pinta sem precisar produzir algo bonito, pode experimentar.
Quando lê sem contar páginas, pode simplesmente entrar na história.
Quando borda sem pensar em vender, talvez perceba o movimento das mãos, a passagem da linha e o tempo desacelerando.
É aí que aparecem coisas que não cabem em uma lista de tarefas:
presença, prazer, descanso e criatividade.
Por alguns minutos, você não está tentando resolver a vida.
Está apenas ali.
E talvez isso seja mais importante do que parece.
Nem todo tempo precisa produzir um resultado para ter valor.
Hobbies também podem ser descanso
Descansar não significa necessariamente não fazer nada.
Para algumas pessoas, descanso é dormir.
Para outras, é pintar, ler, cozinhar, caminhar, cuidar das plantas, bordar, jogar ou assistir a uma série.
A pergunta talvez não seja se a atividade parece útil.
É: “Como eu me sinto enquanto faço isso?”
Talvez um hobby permita que você saia, por alguns instantes, do modo obrigação.
Você não precisa resolver nada.
Não precisa melhorar nada.
Não precisa chegar a lugar algum.
Só precisa estar presente naquela pequena experiência.
Quando o hobby deixa de ser hobby
Uma atividade pode continuar sendo a mesma e, ainda assim, deixar de proporcionar a mesma sensação.
Antes:
“Vou bordar porque estou com vontade.”
Depois:
“Preciso terminar esse bordado.”
Antes:
“Vou pintar porque quero experimentar.”
Depois:
“Preciso melhorar minha técnica.”
Antes:
“Vou ler um pouco.”
Depois:
“Preciso atingir minha meta mensal.”
Antes:
“Quero fazer cerâmica.”
Depois:
“Preciso transformar isso em produto.”
Nada disso é necessariamente ruim. Metas podem ser divertidas e aprender uma técnica pode ser prazeroso.
A questão é outra:
Ainda estou fazendo isso porque gosto ou porque sinto que deveria estar produzindo alguma coisa com isso?
Às vezes, a resposta será “as duas coisas”.
E tudo bem.
Só vale perceber quando o prazer começa a desaparecer.
E quando o hobby também pode virar trabalho?
Ganhar dinheiro com aquilo que amamos não é um problema.
Pode ser maravilhoso transformar uma habilidade em projeto, negócio ou profissão.
Eu penso nisso porque muitas das coisas que gosto de fazer também podem se relacionar ao meu trabalho criativo.
O bordado pode virar presente ou produto.
A pintura pode virar conteúdo.
A leitura pode inspirar um artigo.
Um projeto artesanal pode se transformar em uma nova ideia para a loja.
Eu não quero abrir mão dessas possibilidades.
Mas também quero preservar um espaço em que essas coisas não precisem produzir nada.
Quero poder bordar alguma coisa que nunca será vendida.
Ler um livro que nunca vai virar recomendação.
Pintar algo que ninguém verá.
Experimentar uma técnica simplesmente para descobrir como é.
Uma atividade não perde o direito de ser prazerosa só porque também pode ser produtiva.
Podemos trabalhar com aquilo que amamos sem transformar tudo o que amamos em trabalho.
O que aconteceu com o prazer de fazer as coisas “sem motivo”?
Quando éramos crianças, isso parecia natural.
A gente desenhava.
Inventava histórias.
Pintava.
Construía coisas.
Colecionava objetos.
Passava horas brincando sem perguntar:
“O que eu vou ganhar com isso?”
A atividade já era suficiente.
Depois crescemos e começamos a medir o tempo.
Quanto trabalhei?
Quanto produzi?
Quanto avancei?
O que consegui concluir?
Essa capacidade de organizar a vida é importante. Mas talvez exista um preço quando levamos essa lógica para todos os espaços.
Começamos a procurar retorno até no descanso.
E esquecemos como é fazer alguma coisa simplesmente porque é gostoso fazer.
Talvez precisemos reaprender isso.
Não para voltar a ser crianças, mas para lembrar que uma vida adulta também pode ter espaços que não estão tentando alcançar nada.
Como recuperar um hobby sem transformá-lo em obrigação
Comece escolhendo alguma coisa que você realmente queira fazer.
Não o hobby bonito no Instagram.
Não aquilo que parece interessante para os outros.
Algo que desperte vontade em você.
Depois, comece pequeno.
Quinze minutos podem ser suficientes.
Não estabeleça um resultado.
Você não precisa terminar.
Não precisa ficar bom.
Não precisa compartilhar.
E permita-se ser ruim.
Experimente, erre, mude de ideia.
Um hobby também pode ser um dos poucos lugares em que você não precisa ter desempenho.
E não se preocupe demais com constância.
Você pode fazer hoje e passar duas semanas sem fazer novamente.
Pode voltar quando sentir vontade.
Um hobby não desaparece porque ficou um tempo parado.
Uma pequena lista para você
Talvez você tenha esquecido do que gosta depois de passar muito tempo perguntando o que é útil.
Então experimente trocar a pergunta.
Pegue um papel e escreva:
“O que eu faria mesmo que ninguém visse e eu não ganhasse nada com isso?”
Não pense em dinheiro, não pense em produtividade, não pense em seguidores. Só escreva.
- Ler.
- Pintar.
- Bordar.
- Cozinhar.
- Cuidar de plantas.
- Escrever.
- Fotografar.
- Caminhar.
- Ouvir música.
- Fazer crochê.
- Assistir filmes.
- Montar quebra-cabeças.
- Desenhar.
- Colecionar alguma coisa.
- Aprender algo novo.
Depois, escolha uma.
Não para transformar em hábito perfeito.
Apenas para experimentar novamente o prazer de fazer alguma coisa porque você quer.
O que meus próprios hobbies estão me ensinando
Tenho pensado bastante nisso porque várias das coisas que amo também podem se transformar em trabalho.
E existe uma diferença importante entre pensar:
“Isso pode virar alguma coisa.”
e sentir:
“Isso precisa virar alguma coisa.”
Quero continuar criando projetos, produzindo coisas e encontrando maneiras de transformar criatividade em trabalho.
Mas também quero preservar aquilo que existe antes do resultado.
Quero ler sem contar páginas.
Pintar sem pensar se ficou bom.
Bordar sem imaginar o preço.
Experimentar algo novo sem precisar descobrir como vender depois.
Talvez eu precise desses espaços para continuar gostando das coisas que faço.
Porque, quando toda atividade precisa entregar alguma coisa, até o prazer começa a parecer trabalho.
Nem tudo precisa servir para alguma coisa
Talvez uma das coisas que eu esteja tentando reaprender seja fazer alguma coisa sem precisar saber onde aquilo vai me levar.
Ler sem contar páginas.
Pintar sem precisar terminar.
Criar sem precisar vender.
Assistir a uma série sem sentir que deveria estar trabalhando.
Fazer alguma coisa com as mãos simplesmente porque, naquele momento, aquilo me faz bem.
Talvez isso também seja uma forma de descanso.
Uma forma de presença.
Uma maneira de lembrar que a nossa existência não precisa ser medida apenas pelo que produzimos.
Nem tudo precisa virar projeto.
Nem tudo precisa virar renda.
Nem tudo precisa ser compartilhado.
Algumas coisas podem simplesmente ser nossas.
E talvez uma vida leve tenha um pouco disso:
espaços em que não precisamos provar nada, melhorar nada, vender nada ou chegar a lugar algum.
Só estar.
Só fazer.
Só gostar.
